Tem marca treinando IA pra parecer gente. E tem gente se comportando como se fosse uma IA criada por marketing.
Cara, o TikTok é essa portinha doida, né? Que mostra pra gente muitos fenômenos culturais.
E o que eu tô vendo é que essa linha que divide Inteligência Artificial e humano tá cada vez mais entrelaçada…
Esse vai ser o nosso tema aqui no Giro de Tendências, quadro da Vedere Marketing que analisa comportamento, cultura e tudo que mexe com a forma como a gente se comunica.
IA usada no marketing, mas com cara de gente
Abre o ChatGPT e entra na área de assistentes. Sabe qual é o número 1, o assistente mais usado? Humanize seu conteúdo gerado por IA.
Ou seja: a gente usa inteligência artificial, e admite que usa, todos os dias. Mas não quer que tenha cara de IA.
Ou quer, em alguns casos. Pega o Burger King como exemplo. Propaganda na TV, em horário nobre, feita com IA e com cara de IA.
Por quê? Porque esse formato ficou popular na internet e a marca aproveitou o hype.
A senhorinha porra louca virou um formato.
E por que tanto vídeo assim funciona?
A imagem comum que a gente tem da senhorinha é uma pessoa frágil, que não fala palavrão, talvez até com algo de “sagrado” em torno dela.
Aí você vê senhoras fazendo piada, tirando sarro dos outros, se comportando fora do padrão.
Qual é o elemento narrativo que chama atenção aqui? Quebra de expectativa.
E nisso existe uma semelhança com o jornalismo. Aquilo que quebra expectativa vira pauta, vira notícia.
Tanto que, em vários desses vídeos das senhorinhas, elas estão numa posição de entrevistada.
IA e entretenimento: o caso Marisa Maiô
Outro exemplo que vale ser analisado: Marisa Maiô.
Não tem nada de novo em um programa de auditório. É a mesma receita da TV dos anos 90, e até antes.
Mas o conteúdo é maravilhoso, porque as “pessoas”, todas criadas com IA, falam absurdos que a gente adoraria ouvir na TV.
A gente assiste um programa real e pensa: Ah, se eu fosse essa mulher, ia mandar o cara se f0d*r.
Inclusive, a gente assistindo, fala em voz alta aquilo que tá na nossa imaginação.
E é isso que a Marisa Maiô faz: ela dá vida pro imaginário. Simula uma realidade que a gente adoraria ver e dar risada.
Ou seja, o sucesso da Marisa Maiô não é a inteligência artificial. É o conteúdo que gera identificação, que vem carregado de humor.
Por isso, se você quer contar boas histórias com IA ou sem IA, a pergunta central não é sobre a tecnologia.
Você precisa voltar na raiz do marketing:
- Identificação;
- Timing;
- Originalidade;
- Branding bem construído;
- Nome fácil de memorizar, com boa sonoridade;
- Personagem carismático.
Quando a gente imita a IA
Por outro lado, tem uma trend meio doida no TikTok: pessoas fingindo que são IA.
É interessantíssimo, porque… Nisso você consegue observar: o que as pessoas interpretam como IA?
- Risada artificial
- Falas genéricas
- Movimentos robotizados
- Erro: o microfone cai
- Inconsistência: alguém cai mas não sente dor, só ri
Se a gente analisa essas paródias como fenômeno cultural, o que está sendo dito?
Quando, propositalmente, eu imito artificialidades, eu intensifico o que divide a IA do humano.
Tem uma mensagem implícita ali: um desejo de separação da IA, ao mesmo tempo que flerta com ela.
“Olha, IA, você pode me imitar, mas até certo ponto.”
Hoje, se a gente vê uma propaganda na TV e reconhece que foi feita com IA, a gente fala: Ó, foi feita com IA.
Tem o fator novidade. Mas também tem uma certa vaidade crítica. Tipo: “A mim você não engana. Tô esperto.”
Tem esse distanciamento… e ao mesmo tempo um flerte. Porque as coisas se misturam. É complexo.
A IA nos ajuda, mas a gente não quer se fundir com ela
Existe o medo de a gente ser substituído no trabalho pelas IAs…
A gente sabe que a IA supera o humano em vários aspectos, e a gente até aceita de bom grado que ela supere, porque ela nos ajuda com isso, ela amplia nossa inteligência…
Portanto, a gente fala “Obrigado, chat”, mas também não quer se fundir com a inteligência artificial.
A gente se apaixona pelas possibilidades que a IA nos dá e, ao mesmo tempo, a gente também se apaixona por ser humano.
Porque consciência, a IA não tem. Ela é espelho. Ela brinca com diferentes repertórios. Ela te assessora. Ela te coloca em contato com outras fontes de conhecimento. Portanto, ela tem usos maravilhosos.
Só que, com a IA sendo cada vez mais presente, eu fico me perguntando: em quais contextos vai ter importância se foi feito com ajuda da IA ou não?
Daqui a pouco, tanto faz ou tanto fez
Desde que o conteúdo seja bom. Ou que seja íntegro, dependendo do caso.
Recentemente, uma agência premiada em Cannes teve que devolver o Leão.
A campanha apresentava dados e histórias como se fossem reais, mas eram distorções criadas com IA.
Portanto, nesse contexto, importa sim.
Agora… pega uma propaganda puramente comercial.
Na publicidade, não tem o mesmo compromisso com isenção ou imparcialidade como no jornalismo.
Eu posso vender meu produto como o melhor do mundo. Essa é a minha verdade. E você, consumidor, sabe que é uma propaganda.
A decisão de comprar essa verdade depende de outros fatores.
Por isso que eu digo: daqui a pouco, tanto faz se foi criado com ajuda da IA. Porque a novidade IA vai ter passado. O olhar vai estar acostumado.
E aí, o que importa mesmo é o de sempre.
O que nunca muda no marketing
- Gera identificação?
- Resolve um problema?
- Toca num ponto emocional?
- Mexe com desejo?
Marketing tem a ver com conexão. Tem a ver com autenticidade.
A pergunta que eu recomendo pras marcas se fazerem é:
Estou me tornando mais eu, ou só copiando o que parece dar certo no algoritmo?
Na dúvida, lembre disso: IA copia padrões, enquanto gente cria desvios.